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Nunca como este ano reparámos no relevo que a imprensa, sobretudo a regional, tem dado à micologia, sinónima de micetologia que o Dicionário da Academia define como sendo «a área da botânica consagrada ao estudo dos fungos, ou seja: a ciência que estuda os fungos.
E quem melhor do que os pastores, os apreciadores dos níscaros, dos fradelhos, dos cogumelos, das pinheiras, dos rapazinhos, conhece essa variedade, os sítios propensos à sua propagação, a diferença entre os comíveis e os venenosos? O mesmo dicionário esclarece que micologista ou micólogo é o botânico especializado no estudo dos fungos e diz também que micogenia ou micogénico tem a ver com o processo de produção desse tipo de fungos. Mas, lamentavelmente, a mais recente, mais cara e mais badalada fonte de consulta etimológica, não dedica qualquer «entrada» ao «níscaro»,(mas ao míscaro) «às pinheiras», ao «rapazinho», ao «fradelho». Apenas enuncia o «cogumelo», definindo-o como «fungo superior, sem flores, nem clorofila, frequentemente em forma de chapéu sobreposto a um pé, que compreende numerosas espécies comestíveis e outras venenosas, dando-se preferencialmente em lugares húmidos, ricos em matérias orgânicas e com pouca claridade» e que «os míscaros, os boletos e os tortulhos são umas das várias espécies de cogumelos». Após esta consulta aos dois volumes do Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, ficámos quase a saber o mesmo em relação ao tema…
Aquela obra fala do «míscaro» e do «tortulho», denominando-os de «cogumelos comestíveis, de cor amarelada, que nasce habitualmente nos pinhais e estivais, sendo também cultivado». Não pretendo ensinar o padre-nosso ao cura, porque nem sou botânico, nem tenho a veleidade de saber tudo sobre cogumelos que é a palavra mais usada para tratar toda esta família de fungos. Mas estarei disponível para os convidar, para fins de Setembro até meados de Novembro de um próximo qualquer ano, se for vivo. Levá-los-ei pelas Terras de Barroso, pela Veiga de Chaves, pelos lameiros de Vila Pouca e de Valpaços, rumo a Vinhais, a Bragança, a Mogadouro, a Sernancelhe. E se não quiserem ir tão longe, terão como alternativa os montes e herdades de Baião, de Mesão Frio, Régua, Santa Marta ou Amarante. Serão surpreendidos, com a quantidade e variedade desses fungos aos quais quem ai nasceu e vive conhece pelos nomes populares de «níscaros» em vez de «míscaros», de «fradelhos» e também de tortulho.
O povo, na sua grande sabedoria, herdada de gerações sem conta, conhece, à distância, essa diversidade, dentro da familiaridade. E era bom que os dicionaristas saíssem dos seus alcatifados gabinetes e viessem ao encontro do povo, como fazem os candidatos presidenciáveis em busca de votos. Talvez pudessem saborear esses «níscaros», «fradelhos», «tortulhos», «pinheiras», cozinhados com presunto, toucinho ou vitela barrosã ou mirandesa. O manjar seria inesquecível. E numa próxima revisão da obra, esses intelectuais da cidade, teriam o cuidado de oficializar o vocabulário regionalista relacionado com esses fungos que a ciência botânica enuncia, mas que uns quantos intelectuais não conseguem distinguir. Porque nestas coisas, como em tudo «a teoria sem prática é um carro sem eixo».
Saturado com as caturrices da pré-campanha presidencial que vulgariza o mais alto cargo da República, ao dar voz a quem perdeu a moral para diariamente nos ofuscar os olhos e os ouvidos, escolhi para tema desta crónica a atenção que por todo o norte do país, as populações têm devotado aos convívios micológicos. Na mesma quinzena recortei notícias dos seguintes jornais regionais:
«Voz de Trás-os-Montes», de 17 do corrente com duas locais, uma sobre Vila Pouca de Aguiar e outra sobre o 7º Encontro Micológico Transmontano II, em Mogadouro;
«Tribuna de Amarante», que relata a XI Festa do Cogumelo e da Castanha, organizada pela Associação Luso-Polaca e da Aventura da Saúde que reuniu cerca de duas mil pessoas;
«Mensageiro de Bragança», que insere uma expressiva gravura, apoiando um belo texto de Carla Gonçalves, falando dos «cogumelos lucrativos», das exportações para França, Espanha e Itália e enunciando os seus verdadeiros nomes, nomeadamente os «rapazinhos» e as «pinheiras»;
«A Voz do Nordeste», de 8 de Novembro, com uma boa nota de Subtil Rodrigues, chamando a Mogadouro a «capital do cogumelo», graças à «Associação Micológica a Pantorra». Aí se informa que está essa colectividade a envolver as escolas de Miranda, Mogadouro e Sendim. Excelente!
Apraz-me suavizar o azedume das minhas crónicas com temas campestres. Tão saborosos como as «niscaradas» que tenho saboreado no meu pátrio e fértil Barroso. Será que o Padre Fontes ainda não se lembrou de promover – nesse fecundo chão – um congresso desta iguaria que, para já, ainda não paga IVA, nem precisa de auto-estradas para lá chegar?
in Notícias do Douro, Por Barroso da Fonte

